Como saber se tenho TDAH?
TDAH: sinais em adultos e crianças e o que explica o aumento de casos no Brasil e no mundo.
Patricia Alves Nishiwaki
4/7/20264 min read


Essa é uma dúvida que aparece muito no consultório, tanto em adultos quanto em pais.
Nem sempre é simples perceber. Muitas vezes, a pessoa cresce ouvindo que é “distraída”, “desorganizada” ou que “não se esforça o suficiente”… e acaba normalizando isso. Mas nem sempre é só isso.
Quando falamos de TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade), estamos falando de três pilares principais: desatenção, hiperatividade e impulsividade.
Na prática, isso pode aparecer como dificuldade de concentração, esquecimentos frequentes, desorganização, sensação de mente acelerada, interromper conversas ou agir sem pensar, além de inquietação e dificuldade de ficar parado. Um ponto muito importante é que esses sinais precisam ter começado na infância, antes dos 12 anos, mesmo que só sejam percebidos mais tarde. Isso porque o TDAH é um transtorno do neurodesenvolvimento, então, sem histórico desde a infância, ele não se encaixa nos critérios diagnósticos.
No dia a dia, isso pode se manifestar de formas diferentes. Em crianças, é comum observar dificuldade de manter a atenção, principalmente em atividades que exigem mais esforço mental, a sensação de que não está ouvindo quando falam com ela, não terminar tarefas, perder objetos com frequência, se distrair facilmente, além de inquietação como mexer mãos e pés o tempo todo, levantar quando deveria estar sentada, responder antes da pergunta terminar e ter dificuldade de esperar a vez. Muitas vezes, isso é interpretado como desinteresse, mas nem sempre é isso que está acontecendo.
Já nos adultos, o quadro costuma aparecer mais como dificuldade de foco, procrastinação constante, desorganização, esquecimentos e uma sensação de estar sempre sobrecarregado mentalmente. É muito comum ouvir frases como “minha cabeça não para nunca” ou “parece que eu não consigo fazer nada direito”. É muito comum em adultos com TDAH ouvir queixas relacionadas ao desemprenho no trabalho e nos relacionamentos.
Existem critérios diagnósticos que ajudam nessa avaliação. Algumas escalas são utilizadas como apoio, organizando os sinais em grupos, geralmente com itens relacionados à desatenção e à hiperatividade/impulsividade. Mas elas não fecham diagnóstico sozinhas. Dentro da avaliação neuropsicológica, é feito um conjunto de testes que ajudam a entender como o cérebro está funcionando. É como se fosse uma "fotografia do funcionamento cognitivo": atenção, memória, organização, raciocínio. Isso é feito por meio de testes padronizados, entrevistas e também relatos de familiares ou pessoas próximas.
O TDAH também pode se apresentar de formas diferentes.
Existem três principais tipos:
o predominantemente desatento, em que aparecem mais dificuldades de foco e organização;
o predominantemente hiperativo/impulsivo, com mais agitação e impulsividade;
o tipo combinado, que reúne características dos dois.
Em geral, meninos costumam apresentar mais hiperatividade, enquanto meninas tendem a ser mais desatentas, e por isso muitas mulheres acabam recebendo diagnóstico apenas na vida adulta, isso acontece porque as expectativas sociais e culturais sobre o comportamento feminino mascaravam os sintomas de TDAH em mulheres.
Muita gente ainda questiona se o TDAH seria uma “modinha”, principalmente porque o número de diagnósticos aumentou nos últimos anos. De fato, houve um crescimento em cerca de 20 anos, os números passaram de aproximadamente 6% para mais de 10%. Mas isso não significa que o transtorno surgiu agora.
O TDAH é um transtorno neurobiológico, com base genética. O que mudou foi o acesso à informação, o entendimento sobre os sintomas e os critérios diagnósticos, que hoje são mais claros. Antes, muitas pessoas simplesmente não eram identificadas.
O diagnóstico não é feito por exame de sangue ou de imagem. Ele é clínico, realizado por profissionais especializados.
E é nesse contexto que a avaliação neuropsicológica entra como uma ferramenta importante. Ela acontece ao longo de algumas sessões e envolve entrevistas, testes padronizados e uma investigação detalhada da história de vida. Muitas vezes, esse processo também envolve outros profissionais, como psiquiatras, escola ou outros especialistas, para uma visão mais completa.
Outro ponto importante é que nem sempre os sintomas são apenas de TDAH. Existe uma associação frequente com outros quadros, como ansiedade, depressão, dificuldades de aprendizagem e autismo.
Uma forma simples de entender isso: é pensar em uma criança com dor de barriga constante. A dor é o sintoma, mas a causa pode ser outra, como alimentação ou ansiedade. No TDAH, o comportamento aparece, mas é preciso entender o que está por trás.
Hoje, sabemos que o TDAH está presente em cerca de 5% a 8% da população, e aproximadamente 70% das pessoas apresentam alguma outra condição associada. Além disso, entre 60% e 70% continuam com sintomas na vida adulta. Ou seja, não é algo raro e não deve ser ignorado.
Vale a pena buscar ajuda quando essas dificuldades começam a impactar a vida escolar, profissional ou os relacionamentos, quando existe frustração frequente ou aquela sensação de “eu tento, mas não consigo”. Nem toda dificuldade de atenção é TDAH, mas também não é simplesmente falta de esforço.
Entender o que está acontecendo muda completamente a forma de lidar com isso.
A avaliação é um caminho para trazer clareza, não apenas um rótulo.
Se você se identificou com os sintomas, podemos conversar.
